sábado, 23 de novembro de 2013

C.


Há tempos que eu não escrevo um poema
Há tempos que de tempo em tempo
Passo em branco por folhas brancas
Talvez por, no esquecimento,
Ter entregado ao vento
Meus sentimentos de morte ou de amor

Sem dor ou lamento
Ou carinho em flor
Não há rima que preste
Não há choro ou vela que se reze

Mas enquanto o tempo não se fez
Dei a alguns suspiros sua vez
Razão e motivo pelos quais eu escrevo

Suspiros de ais inconformados
De seres impossibilitados
De amar sem pecado
Fadados
A beijos e a abraços isolados
Cada um no seu desejo 
Cada outro no sorriso vivo dos olhos fechados

E como de angústia também se faz verso
É nesse não poder que hoje eu tropeço
Minha (po)ética tão esquecida

E para não chorar mais
Deixo um recado
Aos desenganados e aos enamorados:
Que nunca seja cedo demais para sentir
Que nunca seja tarde demais para ver partir
Pois são os suspiros que mais revoltam a razão
São os suspiros que mais doem na alma

Lici Cruz

sábado, 16 de novembro de 2013

O curioso caso de uma mente sem lembranças


Encontre o erro de coerência nas frases: “Mãe diz aplicar Botox na filha de sete anos para evitar rugas no futuro.”, “Menino de dez anos trabalha doze horas por dia para ajudar no sustento da casa, e diz que seu maior sonho é, um dia, poder ir à escola.”, “Depois dos quarenta, ex-Miss Universo, obcecada pela beleza, fica com parte do rosto queimado após tratamento estético.”, “Rogério Ceni diz que está no auge da sua carreira e que se sente um menino ainda, e renova contrato com o São Paulo até 2020.” – ok, essa última foi zoação, mas o assunto é sério.
Se você não encontrou nada de anormal nas três primeiras frases, é bem provável que você sofra da “Síndrome da negação ou da falta de noção etária”, cujos sintomas e efeitos são a adultização de crianças, com a destituição pueril e quebra de qualquer direito à infância; e a não aceitação do amadurecimento e evolução do processo natural humano, resultando na perda da noção de tempo, da capacidade de viver e do sentido do por que se vive.
A dor de ver o tempo agir em nossos músculos, em nossa pele, em nossa memória; de ver nossos sonhos, antes tão inteiros e convictos, “Darwinizarem-se” e, para não se extinguirem, tornarem-se “desejos de um dia quem sabe...”; essa dor toda de chão pisado, de cabelos perdidos e de olhos cansados, não é e nunca será maior do que a dor de olhos novos impedidos de brilharem e de mãos e pés, pequenos e ágeis, proibidos de bolas, bonecas e conquistas. Essa dor também pode até parecer mais intensa, mas nunca será tão cruel como a de um corpo se despedindo da sua alma. Corpo esse que, tardiamente, se arrependeu pelo egoísmo de ter “cuidado” tanto de si próprio, ao ponto de nunca ter dado a essa alma, sequer, um par de sonhos novos, ou perguntado como ela estava se sentindo, como tinha sido o seu dia ou se ela precisava de algo.
A vida é sim passageira, mas quem decide a prudência ou a imprudência do trânsito ainda é o motorista. Portanto, se encher a cara de estupidez ou abusar na ignorância, peça ajuda ou espere o ignóbil efeito passar.
Não arrisque a sua vida. Não acelere a vida do outro. Alguns caminhos ou atitudes podem não ter volta.


Lici Cruz